O projeto Koreatown e a atuação da Casa do Povo pela diversidade cultural no Bom Retiro
Hoje em dia, o bairro do Bom Retiro é objeto de pressão institucional a favor do projeto da Koreatown, promovida tanto pelo aparato público local quanto pela diplomacia sul-coreana, interessados ambos na sua exploração turístico-comercial baseada unilateralmente na identidade cultural nacional coreana. As principais propostas do projeto original, apresentado inicialmente em 2021 pelo cônsul-geral da Coreia do Sul no estado de São Paulo, Insang Hwang, são:
- Mudança do nome da estação de metrô do bairro para Coreia-Tiradentes;
- Iluminação com luminárias tipicamente coreanas nas principais ruas do bairro;
- Transformação do canteiro localizado no cruzamento das ruas Prates e Ribeiro Lima na praça Brasil-Coreia, com a conservação do Monumento Uri (que significa “nós” em coreano), ali inaugurado em 2018 em homenagem às relações entre os dois países;
- Alteração do nome de algumas das principais ruas do bairro para incluir palavras como “Coreia” e “Seul” na nomeação dessas ruas;
- Revitalização e recuperação de áreas ocupadas por ferros-velhos, numa estratégia de promoção de segurança pública.
Enquanto o interesse de órgãos e atores da administração pública local no processo de “coreanização” do Bom Retiro — fomentado inicialmente e em outro formato desde a prefeitura de João Dória (PSDB) entre 2017 e 2018 — possa ser reduzido ao seu aspecto econômico, com a perspectiva de que a Koreatown pudesse funcionar como pólo turístico-comercial rentável e dinamizador da economia local, do lado da diplomacia sul-coreana há mais interesses em jogo. A proposta da Koreatown pode ser inserida como parte de uma estratégia sul-coreana mais ampla de desenvolvimento econômico interno e afirmação política dentro do cenário internacional, que teve sua origem na década de 1990 quando o país enfrentava uma crise econômica, em resposta contra a qual o governo adotou diversas medidas, dentre as quais pode-se citar a ampliação do investimento em educação, o rearranjo comercial exterior de sua indústria automobilística por meio da diversificação de mercados, e o investimento e incentivo à produção cultural visando sua exportação.
A exportação dos produtos culturais da Coreia do Sul para outros países, que se ampliou nos anos 2000 e ficou conhecida como Hallyu ou onda coreana, é animada por três motivos centrais. O primeiro consiste no retorno econômico oriundo dessas relações comerciais e da dinamização da indústria cultural sul-coreana, sobretudo a musical e audiovisual — a título de exemplo, pode-se citar a receita estimada de mais de U$1 bi promovida pelo lançamento da faixa “Dynamite” do grupo de K-pop BTS em 2020, bem como a receita total dos filmes coreanos em 2019, que foi de aproximadamente U$820 mi —, numa estratégia que coloca a cultura do país como variável do desenvolvimento econômico. O segundo motivo refere-se à transformação e ampliação de sua presença externa no cenário internacional por meio do chamado soft power num movimento em que a indústria cultural passa a ter uma visão e estratégia política de diálogo com outros países — a título de exemplo, podem ser citadas as “apresentações diplomáticas” de grupos sul-coreanos no encontro do presidente Moon Jae-in com o presidente francês Emmanuel Macron em 2018, na visita do presidente estadunidense Donald Trump a Seul em 2019, e no histórico encontro de Moon Jae-in com o presidente norte-coreano Kim Jong-un em Pyongyang no ano de 2018. Por fim, um terceiro motivo, que pode ser visto como decorrente dos dois anteriores, consiste na ampliação do turismo cultural, que traz tanto retornos econômicos pelo aquecimento da indústria do turismo em si, quanto continuidade da difusão cultural sul-coreana ao estimular o aprendizado da língua, da história e de traços culturais daquele país.
Para dar maior concretude à relação entre o processo que tem lugar hoje no Bom Retiro e o contexto mais amplo da Hallyu, basta nos remetermos aos argumentos mobilizados pelo cônsul-geral sul-coreano Insang Hwang em defesa do projeto. Um dos argumentos mobilizados pelo diplomata, em meio às articulações políticas junto à administração pública local, seria o resultado bem sucedido da construção de uma Koreatown em Los Angeles, nos EUA, quando era cônsul naquela cidade, o que poderia ser replicado no caso do Bom Retiro com desfechos igualmente positivos. Um outro argumento utilizado seria a visibilização da importância da comunidade sul-coreana na formação cultural do bairro do Bom Retiro e, por extensão, da cidade de São Paulo, por meio do resgate histórico da memória dessa comunidade e de sua história de imigração, bem como a promoção da cultura sul-coreana.
É fato que a presença da comunidade sul-coreana e suas expressões culturais no Bom Retiro é, com efeito, relevante e merece ser registrada, valorizada e promovida. No entanto, na medida em que implica na submissão e apagamento de outras expressões culturais existentes ali e igualmente importantes no desenvolvimento sociocultural, bem como econômico, daquele território, o projeto da Koreatown aparece como uma ameaça a essas outras várias comunidades. Um exemplo que é muitas vezes referido como termo de comparação, por parte de pesquisadores e da sociedade civil organizada, para fazer a crítica do projeto de coreanização do Bom Retiro é o caso do bairro da Liberdade, que foi identificado, por meio de ações do poder público, como um “bairro japonês”, promovendo assim o apagamento da memória e da história do bairro no que se refere às demais comunidades e aos acontecimentos anteriores ali ocorridos. A pressão a favor da Koreatown no Bom Retiro pode ser vista como uma tentativa de petrificar culturalmente o bairro na forma estanque de uma cultura de massas orientada para fins turístico-comerciais e ideológicos. Esse processo se sustenta numa narrativa monocultural que busca se impor como hegemônica ao submeter os interesses do conjunto da população do bairro a interesses externos. Essa narrativa é construída por meio da seleção, distorção e reconfiguração de aspectos do complexo cultural popular e orgânico próprio do bairro, acentuando a presença da comunidade coreana em detrimento das demais, de forma que o projeto da Koreatown pode ser visto como um processo de “desaculturação” do bairro de várias de suas faces culturais em favor de uma única.
Logo após a apresentação do projeto da Koreatown pelo cônsul sul-coreano para a administração pública da cidade, diversas entidades do Bom Retiro se organizaram para a divulgação, em agosto de 2021, de uma carta aberta que ressalta a diversidade cultural do bairro e se posiciona contrária ao projeto. A Casa do Povo foi uma das instituições que lideraram esse movimento de articulação territorial para a publicação dessa carta-manifesto em defesa da multiculturalidade e da diversidade cultural no bairro — inclusive, foi na página da própria Casa no instagram que ela foi postada. A carta teve grande repercussão na mídia na época de sua publicação, estimulando um debate público que não se limitou ao bairro do Bom Retiro, chamando atenção de outras parcelas da população paulistana para o acontecimento que estava — e ainda está — em curso. Apesar da dificuldade na procura, foi possível encontrá-la por meio de um processo de “netnografia” no perfil da Casa do Povo no Instagram, sendo que ela foi disponibilizada, junto ao enlace do post de origem, numa outra postagem do blog, para facilitar o acesso e ajudar a manter viva a memória desse movimento.
Além da publicação da carta e de outras atividades contrárias ao projeto Koreatown, a Casa do Povo também participou da construção do coletivo “Bom Retiro é o Mundo”. O coletivo, fundado no fim de 2021, promove a articulação entre pessoas e organizações locais com os objetivos de pensar o bairro e promover a diversidade nele. Ele funciona também como elemento de organização da população do bairro para a representação de seus interesses em instâncias públicas da administração municipal, levando as posições e discussões por ele promovidas como força política a ser ouvida nos processos decisórios sobre o bairro.
Como resultado da parceria entre a Casa e esse coletivo mais amplo do qual ela também faz parte, foi realizado um podcast, disponibilizado no início de 2023, também chamado “Bom Retiro é o Mundo”, que busca divulgar ao público aspectos da história e características do bairro por meio de conversas com pesquisadores e moradores. O podcast é composto por seis episódios: 1) Conhecendo o Bom Retiro, que busca introduzir a história da formação multicultural do bairro; 2) Prato Cheio, que aborda a diversidade de opções gastronômicas do bairro, que tem restaurantes de culinária típica de mais de dez países; 3) Mistura Urbana, que pensa o reflexo das atividades econômicas e diferentes comunidades que ali residem na ocupação urbanística dos espaços do bairro, contendo também um debate crítico acerca do projeto Koreatown; 4) Várzea, que discute a influência da característica do Bom Retiro ser um bairro “entre-rios” na sua formação cultural e história, com destaque para o futebol de várzea; 5) Vivência na Rua, que discute a situação da população de rua na cidade e no bairro; 6) Zona, que aborda a prostituição no bairro ao longo de sua história.
FONTES:
Sobre o soft power sul-coreano → https://www.poder360.com.br/poder-internacional/internacional/de-bts-a-parasita-entenda-como-a-coreia-do-sul-aplica-o-soft-power/
Sobre o soft power sul-coreano → https://www.paulogala.com.br/k-pop-parasitas-e-jurassic-park-no-desenvolvimento-da-coreia-do-sul/
Sobre o projeto Koreatown → https://diplomatique.org.br/koreatown-entre-a-cidade-de-enclaves-e-a-urbe-cosmopolita/
Sobre o projeto Koreatown → https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/08/consul-quer-transformar-o-multicultural-bom-retiro-em-korea-town.shtml
Sobre o projeto Koreatown → https://jornal.usp.br/radio-usp/por-que-transformar-o-bairro-do-bom-retiro-em-korea-town/
Sobre o caso do bairro da Liberdade → https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-que-a-liberdade-significa-para-a-memoria-dos-negros-em-sao-paulo/
Carta Aberta contra Koreatown → https://www.instagram.com/p/CSh38zZJzUM/?utm_source=ig_web_button_share_sheet&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
Podcast Bom Retiro é o Mundo → https://casadopovo.org.br/en/o-bom-retiro-e-o-mundo-um-podcast-original-do-bairro/

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