A Casa do Povo e o Bom Retiro: portas abertas à multiplicidade do bairro
A atuação da Casa do Povo no bairro do Bom Retiro é espelhada por seu projeto arquitetônico: um espaço aberto e flexível capaz de abrigar as mais diversas demandas que possam espontaneamente aparecer reivindicando um lugar. O projeto, assinado pelo arquiteto Ernest Carvalho Mange, conta com um subsolo, um piso térreo, três pavimentos e um terraço. Seu partido estrutural é simples: as lajes dos pavimentos são sustentadas por grandes arcos que se apoiam nas vigas incorporadas à parede do edifício. Desta forma, os pavimentos do edifício resultam em salões amplos; a ausência de colunas e paredes a delimitar e definir as possibilidades de uso do edifício dá lugar a uma grande área livre, passível de ser moldada e usufruída de acordo como se quiser. A plasticidade é, portanto, um elemento essencial para o projeto de arquitetura da Casa do Povo. Igualmente, a atuação da Casa do Povo no bairro se caracteriza pela plasticidade que marca sua arquitetura; daí a sua importância.
Em primeiro lugar, poderíamos apontar para o fato de que a programação da Casa não possui grade fixa - pelo contrário, seus horários são flexíveis para poderem se adequar às necessidades de cada projeto, de forma a atender tanto associações do bairro quanto propostas artísticas fora dos padrões. Nesse sentido, a Casa não se volta ao atendimento de algum tipo de público alvo externo mas, antes, se abre a participantes ativos que experimentam o espaço de acordo com a própria necessidade e em constante acordo e negociação com os tipo de uso propostos por outros participantes. Trata-se, portanto, da formação de uma comunidade, que se articula através da institucionalidade da Casa, que passa a engrossar o caldo comunitário e cultural do bairro. Sua função, portanto, deixa de ser apenas cultural e passa a ganhar cada vez mais feições políticas.
Tal proposta institucional exige da Casa uma sensibilidade aguçada e uma escuta atenta às demandas mais urgentes do bairro. Um exemplo disso é sua atuação durante a pandemia da Covid-19. As ruas do bairro do Bom Retiro e do bairro da Sé, seu vizinho, são utilizadas como pontos, assim chamados popularmente, por profissionais do sexo. Com a chegada da pandemia, essas trabalhadoras perderam sua fonte primária de sustento e precisaram por isso buscar outras atividades e ocupações. Face ao fechamento da maior parte das atividades econômicas e à discriminação social que marca sua profissão, a situação na qual se encontravam era crítica - era quase impossível encontrar uma alternativa de trabalho. Neste contexto, a Casa do Povo se abriu à ONG Mulheres da Luz, que busca promover cidadania às mulheres em situação de prostituição. Como forma de acolhê-las, a Casa transformou um dos seus grandes salões em uma pequena fábrica de produção de sabão. Fabricados com óleo de cozinha usado e 100% biodegradáveis, o sabão em barra produzido por essas mulheres se tornou, a um só passo, um instrumento de humanização, de acolhimento e de geração de renda. Vendidos a preços populares, sua distribuição atendeu primordialmente as famílias moradoras do próprio bairro. Ao nosso ver, esse projeto é emblemático da atuação comunitária da Casa e de sua importância para o bairro.
Poderíamos ainda citar outra ação, a saber, a da distribuição de cestas básicas durante a pandemia. Em um bairro multicultural, marcado por hábitos alimentares e dietas muito díspares entre si, montar uma cesta básica única que atenda à todas as necessidades é uma tarefa impossível - na verdade, a pretensão de reunir, em uma única cesta, gêneros alimentícios que atenderiam universalmente a população do bairro só poderia significar um desrespeito. Por isso, foi proposta a seguinte solução: ao invés de enviar um kit pronto, as famílias compareceriam à Casa e, em um salão montado em forma de feira, montariam suas cestas de acordo com seus hábitos e necessidades. Desta forma, a Casa honrou seu compromisso de abarcar as diferentes culturas que marcam o bairro e afirmou novamente sua importância política e cultural.
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